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sábado, 24 de junho de 2017

Ilha das Flores

Ilha das Flores
1989 ‧ Curta-metragem/Documentário ‧ 15 min
Ilha das Flores é um filme de curta-metragem brasileiro, do gênero documentário, escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado em 1989, com produção da Casa de Cinema de Porto Alegre.

Filme Ilha das Flores – resenha crítica

O sistema capitalista tem organização central simples: troca de dinheiro por coisas.  O dinheiro – capital – é, portanto, o cerne do sistema. Mas o que acontece, então, com quem não possui o capital? As relações existentes no sistema ocorrem de maneira justa? Todos têm as mesmas possibilidades de acesso ao capital? O documentário/filme “Ilha das Flores” mostra, camuflado em simplicidade, a profundidade de tais questões.
O sistema de trocas é, como dissemos, a engrenagem básicas das sociedades capitalistas. Para realizar a maior parte das trocas é necessários possuir capital. Outras trocas são realizadas para obtenção desse capital: trabalho por capital; coisas por capital ou mesmo capital por mais capital.
Tudo simples, portanto. Mas o que acontece com quem não tem capital ou mesmo o que trocar pelo tal capital?
A condição individual de falta de capital ou de poder de troca é conhecida como pobreza. Como sobreviver sem capital em uma sociedade quase que totalmente baseada no capital? A falta de resposta para tal pergunta leva seres humanos a viverem em condições inferiores à de alguns animais, como demostrado no documentário. A comparação dos “catadores” com o porco foi sublime. Aqueles estariam abaixo do animal na escala de preferência pelos alimentos pelo fato deste, o suíno, possuir um dono, e aqueles nem isso.
A renda é, portanto, o principal fator para definição de uma situação de pobreza. A total falta de renda, conforme exemplo do documentário, estabelece uma situação de pobreza absoluta, assim como assevera SANTOS (2012, p. 17):
Assim, aqueles cuja renda se situe abaixo do custo dessas necessidades são considerados pobres. E, aqueles que têm rendimentos ainda menores, os quais não permitem a aquisição sequer de uma cesta de alimentos básica, essencial ao suprimento de necessidades nutricionais mínimas, são denominados indigentes.
Importante salientar, contudo, que não somente a renda determina a situação de pobreza de um determinado grupo de indivíduos. Acesso – ou falta dele – a outras “garantias constitucionais” como educação, saúde, habitação cultura e outros também são indicativos de fragilidade social. Conforme exemplo exposto no documentário, os “catadores” ali mostrados não só viviam em condições de completa falta de potencial financeiro, mas também não possuíam condições mínimas de qualidade de vida. Seu “invólucro” social é de escassez, como esperar que seres humanos inseridos nesta triste realidades tenham condições, por si só, de mudar de posição?
Essa diferenciação entre “posições sociais” é o que se convencionou chamar de Desigualdade Social. Em uma sociedade capitalista existem, invariavelmente, níveis de potencial social e financeiro. Enquanto alguns possuem muito, outros mal conseguem para sua subsistência. Uma análise mais apurada do sistema mostra sua completa crueldade.
O que já possuem “coisas” ou capital (indústria de perfumes do documentário) tem grande facilidade de trocá-los por mais capital, possuindo mais coisas, mais capital e trocando por mais coisas e mais capital, num fluxo sem fim de enriquecimento. Quem possui poucas coisas e pouco capital (vendedora de perfumes), constrói toda sua vida na troca do que possui pelo suficiente para sobreviver. Os que nada possuem (catadores), seguem apenas o instinto natural humano de sobrevivência.
Vale frisar, embora seja bastante claro, que vivemos em sociedade, forma que as pessoas que compõem a estrutura social deveriam possuir, pelo menos, condições mínimas de sobrevivência, sem exceção. Fazer ou não, efetivamente, parte dessa estrutura social, nos leva exclusão e cidadania.
De acordo com SANTOS (2012, p. 21) “(…) exclusão, em sua semântica original, significa o não pertencimento a determinado grupo ou condição”. Não pertencer a nenhum grupo, em primeira análise, pode não possuir nada de negativo. Contudo, quando o foco da problemática são pessoas e sociedade, trata-se de um grave problema. Os “catadores” do documentário, por exemplo, faziam parte de um grupo: indigentes. Contudo, estar “incluído” neste grupo, significa estar “excluído” da sociedade. Conforme exemplo do documentário, o porco estaria mais “incluído” socialmente que os “catadores”, já que o suíno, pelo menos, possuía acesso garantido à alimentação.
Sem qualquer tipo de exagero filosófico, podemos afirmar que, no caso em tela, o porco seria “mais cidadão” que os “catadores”, já que, conforme SANTOS (2012, p. 22): “Um indivíduo que desfruta da condição de cidadão é aquele que goza dos direitos consignados pelo Estado, bem como da possibilidade de acesso a uma renda adequada, que lhe permita desfrutar de um padrão de vida comum a seus concidadãos”.
Com base nesse conceito, queda evidente que as condições vivenciadas pelos “catadores” em nada os colocam na condição de cidadãos, pois estes não têm, nem de longe, o “padrão de vida” de seus concidadãos.
Interessante frisar, neste ponto, que tendo em vista a organização insana do sistema capitalista, pessoas que vivem nas condições mostradas no documentário tem pouca, ou nenhuma, chance de alterarem, por si só, suas condições de vida. Isso nos leva a questionar a ideia de justiça do sistema.
Em termos simples e diretos, justiça, em um estado de direito, é o que está de acordo com as leis. Contudo, socialmente falando, será que todas as leis são justas? É correto tratar de maneira igual pessoas que vivem em condições desiguais?
Acreditamos que não. Contudo, a maior parte das leis e políticas existentes são postas em prática unicamente para manter o status quo, de forma que não interesse de quem elabora tais políticas que as condições se alterem muito. Em razão disso, mesmo com o claro avanço econômico que alguns países passaram nos últimos anos, como o Brasil por exemplo, não parece ter alterado muito a condição de miséria de algumas pessoas e a latente desigualdade social.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANTOS, Maria Paula Gomes dos. O Estado e os Problemas Contemporâneos. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração / UFSC, 2012.
Disponível em:< http://www.estudoadministracao.com.br/ler/filme-ilha-das-flores-resenha-critica/>. Acesso: 24/06/2017

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